sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Urbano ou divino?

          Um sol tão quente a ponto de permitir que o dia seja forte até as cinco, destemido e dono das cores todas da cidade. A rua é batizada de Rio Branco e a cidade possui poderes para engarrafamentos. Aliás, uma carreta enorme com aqueles avisos de "mantenha distância" (esse é o código) e sugerindo cuidados de ultrapassagem, afinal, o comprimento passava dos  seis  metros. Queria dobrar uma esquina e adentrar na bendita Rio Branco, mas um carro pequeno estacionado na rua desejada pelo carro vantajoso e do lado oposto estava estacionado  e impedia que a carreta percorrece  com liberdade e passeasse pela Rio Branco.
          O pequeno carro está sozinho, o dono parece estar longe, pois a carreta espera. A insistência da buzina do motorista da carreta  supõe tal ideia.
            No vidro das costas do carro pequeno exibe-se um adesivo: "Quando Deus quer é assim".

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Afonia (Marta Eugênia)


O chão frio recebe os meus pés
e eu nem tenho uma garganta agora...
O que não sei além do horizonte
debruça os olhos sobre mim.     
Algumas saudades nunca vão emagrecer...
Seus chinelos largados no meio da sala,
sem liturgia, é parte dessas lembranças.
Pro sono profundo de todos
ela já foi dormir
e nem pôde levar seus chinelos...
O que fazer das coisas acordadas
que ela me deixou?
E é nessa hora da vida
que o medo de mim se aproxima
e uma inapetência pra raios de sol;
a lua esplêndida de minguância,
de suas vestes eu aprendi.
Eu preciso obedecer à poesia, 
ofegante e sem pestanejar
do mesmo modo de minha infância
a correr pelas calçadas pra chegar depressa
com o pacote de pão.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Aqui tem dessas coisas

Nem acreditei no que estava ouvindo, mas alguns rapazes conversavam na praça sobre um candidato a vereador que distribuiu panelas de pressão a seus possíveis eleitores. O outro problema, além desse, é que a tampa só era entregue ao eleitor, depois das eleições e seu sucesso como candidato, garantido. Dá pra acreditar?

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Questionamento da semana

Por que as pessoas usam os termos benigno para dar oposição a maligno em se tratando de situações de patologia? Se há um tumor maligno, vá lá, mas se não é maligno por que tem que ser chamado de benigno? Qual é o bem que faz um tumor benigno? Não poderia ser chamado de "não-maligno"?

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Quem bate a porta e abre a janela?

A raiz de um verso ocupa-me

e não abre a porta, mesmo assim.

Escuso da luz como em sombra

ou na orelha de algum livro.

Daí então, percebo a natureza aos pulos

dando o ar de sua graça pelo vidro da janela:

gotículas de chuva desafiando a gravidade.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O prato do dia

Deixei a palavra na minha cozinha
cozinhando tudo.
Talheres foram vistos a obedecê-la,
pratos engoliam alimentos com ares semânticos,
xícaras bebiam café soletrado e doce,
copos carregavam suco de modo vocativo
como uma santa num andor.
Assim, a palavra fuçou, lambeu, bebeu, comeu
e mais verbos cometeu para substantivos.
Ia pra sala, mas preferiu a porta dos fundos
ao dar de cara com a gramática na estante
com uma borracha na mão, toda sintática.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

As letras minúsculas (Marta Eugênia)

O dia tartarugou o quanto pôde
até desfazer-se do verniz.
Os quadros da sala retiraram a voz das paredes,
obstantes.
Havia um tiro certeiro da solidão na paisagem da tela.
Ou balas perdidas em existência e confusão
na mobília que decorava a personagem sem rosto.
Assim, pelos olhos, engasgava-se com palavras,
atravessadas na garganta feito um osso;
e não podia engolir algumas delas.
Então, na cozinha, ela apagou o fogo,
a ebulição do molho cessou.
Enfim, podia chorar.
Agora viria uma noite que rastejava em lagarto,
a interpretá-la.
Porque ossos eram exatos e a carne temperada de indecisão.
Não eram sobres as mesas expostas as ceias, as refeições?
Observou formigas embaralhando migalhas de pão
na toalha xadrez, grata pelo chão das miniaturas.
Era outro solo possível para se pensar.
A campainha tocou enquanto ela abria o vinho.