sábado, 30 de novembro de 2013

Alarme

Ela descobriu a língua
como se paladasse pólvora.
Ajeitou o pensamento
e alertou-se sobre o medo
que só tinha quatro letras
e coragem tinha mais.

Dotes

Meu pai conspirava dotes
em redor de nossa casa:
uma pedra na frente
da porta dos fundos
dizia-se a qualquer um
que dali se via
da melhor posição
o adeus do sol de todo dia
beirando o final da tarde...
Era a pedra favorita
de meu tio Ignácio.
É a memória viva que uso
em minhas nascentes.
A cancela que avisava
o começo de nossas terras
tinha lá sua conversa
contundente.
Ouço o chiado e o batido de agora
na audição do pensamento,
dotes se abrem pra mim.

domingo, 24 de novembro de 2013

Um pouco de Biografia




Apesar de ter nascido no Estado da Bahia, Alagoas me conhece bem melhor. Foi em Arapiraca que nasci como poeta. Meu primeiro poema “Quanto Tanto” apareceu pra mim numa manhã de segunda-feira. Enquanto abria os olhos para o dia, as palavras me diziam para levantar e registrar o poema. Nasceu e nem precisou de rabiscos ou de uma olhada de segunda mão, como fazem as pessoas que escrevem. Nasceu pronto pra ser o que é até hoje.
Arapiraca me pariu como poeta e isso me induz a querer ser filha daqui. Aliás, meu primeiro poema é meu registro de nascimento. “Aliás, de novo, minha mãe teve que fazer uma segunda via do meu Registro de Nascimento” quando chegamos por aqui no ano de setenta e dois. No cartório da Dona Lourinete, se não me engano. Talvez por essa situação também eu me sinta arapiraquense.
“Quanto Tanto” estava impresso no uniforme dos estudantes do curso de letras/Inglês da UNEAL (FUNESA, na época) por decisão da turma. Uma ideia que partiu de uma das alunas do curso por ter visto o poema em meu caderno sobre a cadeira da sala de aula. Eu também era aluna nessa turma. A aluna Marildes Nunes o leu na hora da aula de Linguística, o poema caíra no gosto dos presentes, o que me tocou bastante.


Eu era menina e vivia a minha infância de sete anos na Escola Estadual Aurino Maciel e minha professora de Português levou a música do Chico Buarque A Banda e a letra para acompanhá-la. Nem lembro mais o nome da professora desse tempo. Creio que isso se deu no ano de 1975 ou 1976. Mas foi impossível esquecer aquela sensação de visita poética, hora em que a poesia puxou-me pelos sentidos. E puxou-me para sempre.
Na inauguração do Memorial da Mulher nesta cidade o Quanto Tanto estava escrito em uma de suas paredes e durou um bom tempo por lá.
Atualmente atuo como professora de Língua Portuguesa e Literatura e desenvolvo oficinas de poesia em Eventos Literários como: Letras no Palco, o qual acontece todos os anos na Universidade Estadual de Alagoas (Uneal). Continuo produzindo textos poéticos.







Tesinho


A poesia segue doente de amor pelas calçadas.
Cambaleando as pernas, procurando um balcão
para um gole de cachaça.
E era horizonte na rua, com linha e tudo,
com bastante azul, inclusive.
Assim, até chegar num amarelo desconcertante,
beirando à esquizofrenia. À Van Gogh?
A campainha tocou.
O aluguel querendo acertar as contas.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Montaria

Era pra ser de alegria
o começo da floresta.
Mas não sei regenerar.
Com bastões de cartilagem,
enganaria o predador.
Mas sei doer meus ossos
só de olhar.
Tenho o letreiro na testa,
a propaganda de mim.
O ar de quem descobriu
que não sabe o que dizer.
bebo a zebra sem listras,
bebo só aquela cor
pela palavra alinhada,
para não fazer desfeita.
O quarto escuro
de seu dorso duro,
vertebrado chão
para minhas ancas.

Mater

O meu dizer encontra
luzes pequenas e intermitentes
vagalúmicas, por que não dizer:
‘seu pai disse que não vai
porque não vai, pronto.’
Pensei de cara em detalhes cármicos,
carmesins, encarnados em
enunciações numéricas dos boletins.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Café com motivo

eu queria que a maçã de Newton
fosse pintada por Marc Chagall
É leve, bem leve o meu olho
diante desses passarinhos
enriquecendo meu quintal.

eu queria que minhas palavras
corressem pelos dedos do Antunes
que põe as dores, as coisas
no cume, no lume, no costume
de seus próprios deslumbres.

eu queria que meu tempo andasse
no meio do mato como o Manoel,
brincando de poesia, andarilho,
endossando ou adoçando o simples
lá para os lados do el mano céu.

assim eu peço enquanto tomo um café:
assim de leve, bem leve me inscreve
na persistência da memória Dali
de seu corpo, me leve, me pede
e não me deixe mais sair daí,
de você, o melhor lugar pra ir.



domingo, 17 de novembro de 2013

Portador


Pouco antes do funeral, olhou para o fotógrafo:
‘pode tirar uma fotografia da minha dor?’
A nudez de corpo e olhar da pose,
sentiu-se no banco em frente ao jardim da casa.
Dava pra ouvir o choro vindo lá de dentro,
o efeito da gravidade fez aquele barulho
quando a foto foi batida e lágrimas adivinharam
os olhos do retratista.

Efeitos para um comprimido



A cabeça não cessa de doer
Lateja um pouco acima dos olhos,
cala o resto do corpo.
Posso olhar as coisas
com seus nomes prediletos:
camisa, prego, botão...
manuseio seus sentidos, até.
Ou ponho máscaras,
um novo jeito pra chamar.
Mas não é fácil dar um grito
depois do analgésico
e relaxante muscular.
Um grito no meio do Atlântico
ou do Velho Chico,
águas a que pertenço.
Porque conheci o mar aos sete anos
e o silêncio me molhou os pés,
me tomou por testemunha.