quinta-feira, 6 de junho de 2013

brinca ideira

Ponte sobre a Lagoa Mundaú
Vão 10m.
O resto fica.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Letramente

Ouço daqui do meu quarto
o ofício de um galo
madrugando as horas.
Minha forma inventada por meus pais
inaugurou-se num agosto
do ano de sessenta e cinco.
Meu primeiro poema
já sabia olhar pra trás
como fazem as memórias.
Uma saudade danada de tudo
que carecia das palavras
pra morder o tempo.
E de tudo que escrevo
há um traço indefeso
dos retratos.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Malabares para um cotidiano

Dentre os meus tenho o sotaque
mais estranho.
Meus versos partem em busca
de esconderijos pela casa.
Zanzam noturnos como ratos na cozinha.
Mas falo do palco, do trapézio,
do contorcionismo lexical da poesia.
Eles fazem sim com a cabeça,
simulam sobre os olhos atenção
e engatam com a prosa corriqueira:
O vizinho que pôs o lote à venda,
a ração do gado que deve ser complementar,
a ingenuidade capital que tinha nosso pai.
Fico por aqui, prendo nos olhos
feições secretas do mandacaru.
E da cozinha surge a voz da mesa posta.
Mas nos amamos sob a mesma lona
e construímos ali juntos
nossos trejeitos inocentes.
 

Pouso para as árvores


Pouso para as árvores

Por vezes tenho que trocar o prêmio da vida
por revanches capitais.

Fico frágil nos preparos e o café se põe amargo.
Prendo os cabelos, aflitos, enredados pela indecisão.
Mas estas árvores daqui da praça, no finalzinho da tarde,
aceitam abertas o rumo dos pardais,
regam encantos e açúcar.

O aperreio natural dos passarinhos buscando
lugar para em corpos dormir,
não vem das pressas em códigos de barra.
Não reza em medidas de grandeza.

Mas em grandeza nascem eles
e as árvores eretas no assunto alado da tarde.
A poesia batendo vira pássaros também.
Antes de o mundo se por,
antes que a noite enraíze seus escuros
e os milagres fujam daqui.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Pouso para um silêncio



Era um bicho enciclopédico e, apontadas
avulsamente, as partes em setas:
Penas. Bico.
Asas – duas – uma esquerda e uma direita.
Pés – dois e com três dedos cada.
Olhos – dois – um do lado e outro do outro.
Mas foi inteiro que ele pousou no chão da mesa
quando eu tomava um café
sem palavras.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Ela

         Ela estava atrasada, os outros já pareciam bem avançados nos trabalhos de Literatura. Não lembro mais de seu nome mas é impossível esquecer a carga de emoção partilhada na sala no outro dia na abertura da aula.
           Ela explicava impetuosamente em voz e gestos sobre sua pressa e dificuldade ao perceber a hora, bem na praça Marques da silva, ainda enfrentaria algumas quadras para chegar à escola. Persuadia-me aquela adolescente para que eu abrisse um pouco a porta da oportunidade no intuito de não perder pontos na disciplina em questão. Foi assim que nasceu a situação que gerou, entre outras coisas, esta crônica. A chance estava dada e respondi-lhe com um alea jacta est enquanto ela fazia uma cara interrogativa. Abri o livro de Adélia Prado aleatoriamente e empreendi-lhe alguns critérios de oralidade. A aula do dia seguinte seria aberta com o poema "Endecha". Ressaltei sobre a memorização do poema e de como ela deveria recitá-lo. É claro que ela aceitou sem restrições.
        Ela já se constava na sala assim que eu cheguei, era cedo e eu já tinha recebido o sol pelas ruas  movimentadas por adolescentes uniformizados, adultos passeando com seus cachorros na Praça Luiz Pereira Lima, dentre outros rituais que o cotidiano sabe contar. Os outros alunos foram chegando também. Pedi silêncio e ela me puxava pela manga da blusa mostrando seu nervosismo de primeira viagem enaltecendo que seria difícil pra ela olhar para todos aqueles rostos a fitá-la. Disse-lhe que poderia fechar os olhos enquanto recitava, seria menos complicado. E ela acreditou e iniciou o poema com a voz ainda meio trêmula:

Endecha

Embora a velha roseira insista neste agosto
e confirmem o recomeço estas mulheres grávidas,
eu sofro de um cansaço, intermitente como certas febres.
Me acontece lavar os cabelos e ir secá-los ao sol,
desavisada. Ocorre até que eu cante.
Mas pousa na canção a negra ave e eu desafino rouca,
em descompasso, uma perna mais curta,
a ausência povoando todos os meus cômodos
a lembrança endurecida no cristal
de uma pedra na uretra.

          Ela estava no pouso da canção da negra ave e desafinando rouca, quando lágrimas escorreram de suas faces. A sala silenciosamente hipnotizada pela jovem, como se fosse uma canção que pertencesse a todos eles. E daquele modo pertencia mesmo. Aquilo tudo era nosso para sempre. Havia no momento um grande beijo da vida e ela estava no meio de nós. Foi lindo.
          Ela terminou e abraçou-me dizendo o quanto era belo aquele poema e o quanto ele entrou e foi saindo pela sua boca como se tivesse vindo de outro lugar infinito dela mesma.Jamais esquecerei, pois dias assim não cabem no mundo dos esquecidos.
          Ela já deve estar agora bem mais velha, assim como eu envelheci no tempo dos humanos e esse poema ainda deve rondar seus passos mentais, do mesmo modo que veio até aqui. Talvez ela com seu poema conquistado ande por outros lugares da literariedade ou mesmo da poeticidade dentro ou fora das palavras.
          Ela ensinou-me, como educadora que estou, que não preciso cair nos braços do senso comum para cansar-me. Nem acreditar que a poesia é instrumento para tolos, ou melhor ainda, que os tolos são imprescindíveis, pois o chão da realidade aprendida por nós merece um desenlace macio dos pés.
Ela ajudou-me a consolidar o pensamento de que a utopia merece ocupar um lugar veemente em nossas vidas, afinal, tantas mentiras ou verdades concretas de agora já foram um dia apenas sonhos. Porque transcenderam no espaço e no tempo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Bioagradável (Marta Eugênia)



Minha mãe costumava dizer que não entendia como uma menina de quatro ou cinco anos tinha a paciência de sentar-se numa pedra e ficar lá por horas a olhar a natureza. Eu dava risada desses comentários. Mas sempre tive essa mania mesmo. De vez em quando me pego parada, cismada como se tivesse um capim na boca, e mesmo morando em apartamento, aproveito um pedaço apenas da árvore, do céu, oferecidos pelas janelas ou pelo espaço aberto na área de serviço.
É intrigante essa atitude de olhar pra trás. Ou mesmo de ser despertada no gerúndio por algo novo, diferente. Pra mim, geralmente esbarro com a poesia. As cenas, as palavras, os gestos que me tomam algumas vezes no cotidiano injetam em mim, de algum modo, o soro da poesia.
Mas nem sempre estive ciente disso. Só de uns anos pra cá. Eu não sabia que a poesia estava de olho em mim. Isso foi acontecendo aos poucos. Eu adoro ler desde criança, aprendi a ler cedo e naquele tempo, as crianças só freqüentavam a escola a partir dos sete anos. E eu ficava torcendo pra atingir logo tal idade e ir pra escola.
Tive uma professora de Português que levou pra sala, na minha quarta série (fundamental) a música do Chico Buarque: A Banda. Aquilo me emocionou tanto! Além disso, antes de ir pra escola em Arapiraca, interior de Alagoas, havia um programa na rádio onde o Zé do Rojão balançava um chocalho no intuito de despertar os moradores da região, os ouvintes. Contudo, despertava mesmo era a poesia dentro de mim. Ele recitava poemas de Zé da Luz, logo depois. Relíquias da vida.
Eu já tive momentos mambembes com o Palhaço Biribinha e seu circo engraçado. Onde muitas vezes conversamos sobre teatro e a Farsa (teatro de costumes) que era apresentada no circo de seu pai em outros tempos.
Já tive meu pai no quintal da casa pedindo paciência a um gato com fome, enquanto ele cortava a carne em tirinhas.
Já tive minha avó colhendo quiabos na horta e ralando comigo sobre meus desastres de catar nos monturos pedaços de vidro (garrafas quebradas) e cortando o dedo polegar. Ela nem sabia que tais cacos tinham ares de diamante.
Já tive minha mãe dizendo à enfermeira aos sussurros: é boa menina, ela faz poesia, coisa que não dá dinheiro.
Já tive primas que no meio das brincadeiras, nos agarrávamos pelos cabelos e aos socos e xingamentos por eu ser uma neta bastarda. Logo depois, toda arranhada eu perguntava a minha vó enquanto ela colocava remédio no meu nariz: o que é bastarda, hem vó?
Já tive um amor que recitou pra mim a letra de uma música do Gonzaguinha.
Já tive um poema roubado.
Já tive um crucifixo italiano doado por uma amiga que eu adoro e que já me mandou tomar naquele lugar quando brigamos e que me perguntou onde estava o crucifixo ao me acompanhar ao hospital quando adoeci.
Já tive poemas e inocências importantes.
Hoje, tenho muitos poemas por fazer.
Hoje tenho o direito de inventar outra vez o que já tive.Por quantas vezes eu quiser.