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domingo, 24 de novembro de 2013

Um pouco de Biografia




Apesar de ter nascido no Estado da Bahia, Alagoas me conhece bem melhor. Foi em Arapiraca que nasci como poeta. Meu primeiro poema “Quanto Tanto” apareceu pra mim numa manhã de segunda-feira. Enquanto abria os olhos para o dia, as palavras me diziam para levantar e registrar o poema. Nasceu e nem precisou de rabiscos ou de uma olhada de segunda mão, como fazem as pessoas que escrevem. Nasceu pronto pra ser o que é até hoje.
Arapiraca me pariu como poeta e isso me induz a querer ser filha daqui. Aliás, meu primeiro poema é meu registro de nascimento. “Aliás, de novo, minha mãe teve que fazer uma segunda via do meu Registro de Nascimento” quando chegamos por aqui no ano de setenta e dois. No cartório da Dona Lourinete, se não me engano. Talvez por essa situação também eu me sinta arapiraquense.
“Quanto Tanto” estava impresso no uniforme dos estudantes do curso de letras/Inglês da UNEAL (FUNESA, na época) por decisão da turma. Uma ideia que partiu de uma das alunas do curso por ter visto o poema em meu caderno sobre a cadeira da sala de aula. Eu também era aluna nessa turma. A aluna Marildes Nunes o leu na hora da aula de Linguística, o poema caíra no gosto dos presentes, o que me tocou bastante.


Eu era menina e vivia a minha infância de sete anos na Escola Estadual Aurino Maciel e minha professora de Português levou a música do Chico Buarque A Banda e a letra para acompanhá-la. Nem lembro mais o nome da professora desse tempo. Creio que isso se deu no ano de 1975 ou 1976. Mas foi impossível esquecer aquela sensação de visita poética, hora em que a poesia puxou-me pelos sentidos. E puxou-me para sempre.
Na inauguração do Memorial da Mulher nesta cidade o Quanto Tanto estava escrito em uma de suas paredes e durou um bom tempo por lá.
Atualmente atuo como professora de Língua Portuguesa e Literatura e desenvolvo oficinas de poesia em Eventos Literários como: Letras no Palco, o qual acontece todos os anos na Universidade Estadual de Alagoas (Uneal). Continuo produzindo textos poéticos.







quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Bioagradável (Marta Eugênia)



Minha mãe costumava dizer que não entendia como uma menina de quatro ou cinco anos tinha a paciência de sentar-se numa pedra e ficar lá por horas a olhar a natureza. Eu dava risada desses comentários. Mas sempre tive essa mania mesmo. De vez em quando me pego parada, cismada como se tivesse um capim na boca, e mesmo morando em apartamento, aproveito um pedaço apenas da árvore, do céu, oferecidos pelas janelas ou pelo espaço aberto na área de serviço.
É intrigante essa atitude de olhar pra trás. Ou mesmo de ser despertada no gerúndio por algo novo, diferente. Pra mim, geralmente esbarro com a poesia. As cenas, as palavras, os gestos que me tomam algumas vezes no cotidiano injetam em mim, de algum modo, o soro da poesia.
Mas nem sempre estive ciente disso. Só de uns anos pra cá. Eu não sabia que a poesia estava de olho em mim. Isso foi acontecendo aos poucos. Eu adoro ler desde criança, aprendi a ler cedo e naquele tempo, as crianças só freqüentavam a escola a partir dos sete anos. E eu ficava torcendo pra atingir logo tal idade e ir pra escola.
Tive uma professora de Português que levou pra sala, na minha quarta série (fundamental) a música do Chico Buarque: A Banda. Aquilo me emocionou tanto! Além disso, antes de ir pra escola em Arapiraca, interior de Alagoas, havia um programa na rádio onde o Zé do Rojão balançava um chocalho no intuito de despertar os moradores da região, os ouvintes. Contudo, despertava mesmo era a poesia dentro de mim. Ele recitava poemas de Zé da Luz, logo depois. Relíquias da vida.
Eu já tive momentos mambembes com o Palhaço Biribinha e seu circo engraçado. Onde muitas vezes conversamos sobre teatro e a Farsa (teatro de costumes) que era apresentada no circo de seu pai em outros tempos.
Já tive meu pai no quintal da casa pedindo paciência a um gato com fome, enquanto ele cortava a carne em tirinhas.
Já tive minha avó colhendo quiabos na horta e ralando comigo sobre meus desastres de catar nos monturos pedaços de vidro (garrafas quebradas) e cortando o dedo polegar. Ela nem sabia que tais cacos tinham ares de diamante.
Já tive minha mãe dizendo à enfermeira aos sussurros: é boa menina, ela faz poesia, coisa que não dá dinheiro.
Já tive primas que no meio das brincadeiras, nos agarrávamos pelos cabelos e aos socos e xingamentos por eu ser uma neta bastarda. Logo depois, toda arranhada eu perguntava a minha vó enquanto ela colocava remédio no meu nariz: o que é bastarda, hem vó?
Já tive um amor que recitou pra mim a letra de uma música do Gonzaguinha.
Já tive um poema roubado.
Já tive um crucifixo italiano doado por uma amiga que eu adoro e que já me mandou tomar naquele lugar quando brigamos e que me perguntou onde estava o crucifixo ao me acompanhar ao hospital quando adoeci.
Já tive poemas e inocências importantes.
Hoje, tenho muitos poemas por fazer.
Hoje tenho o direito de inventar outra vez o que já tive.Por quantas vezes eu quiser.