quarta-feira, 20 de novembro de 2013


o mar -e longo tempo sonhando

Mater

O meu dizer encontra
luzes pequenas e intermitentes
vagalúmicas, por que não dizer:
‘seu pai disse que não vai
porque não vai, pronto.’
Pensei de cara em detalhes cármicos,
carmesins, encarnados em
enunciações numéricas dos boletins.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Café com motivo

eu queria que a maçã de Newton
fosse pintada por Marc Chagall
É leve, bem leve o meu olho
diante desses passarinhos
enriquecendo meu quintal.

eu queria que minhas palavras
corressem pelos dedos do Antunes
que põe as dores, as coisas
no cume, no lume, no costume
de seus próprios deslumbres.

eu queria que meu tempo andasse
no meio do mato como o Manoel,
brincando de poesia, andarilho,
endossando ou adoçando o simples
lá para os lados do el mano céu.

assim eu peço enquanto tomo um café:
assim de leve, bem leve me inscreve
na persistência da memória Dali
de seu corpo, me leve, me pede
e não me deixe mais sair daí,
de você, o melhor lugar pra ir.



domingo, 17 de novembro de 2013

Portador


Pouco antes do funeral, olhou para o fotógrafo:
‘pode tirar uma fotografia da minha dor?’
A nudez de corpo e olhar da pose,
sentiu-se no banco em frente ao jardim da casa.
Dava pra ouvir o choro vindo lá de dentro,
o efeito da gravidade fez aquele barulho
quando a foto foi batida e lágrimas adivinharam
os olhos do retratista.

Efeitos para um comprimido



A cabeça não cessa de doer
Lateja um pouco acima dos olhos,
cala o resto do corpo.
Posso olhar as coisas
com seus nomes prediletos:
camisa, prego, botão...
manuseio seus sentidos, até.
Ou ponho máscaras,
um novo jeito pra chamar.
Mas não é fácil dar um grito
depois do analgésico
e relaxante muscular.
Um grito no meio do Atlântico
ou do Velho Chico,
águas a que pertenço.
Porque conheci o mar aos sete anos
e o silêncio me molhou os pés,
me tomou por testemunha.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Dom sobre dom

Ah, ninguém sabe o que é o dom
das palavras quando enxerga o poeta
de tão alegre,doída ela se entrega
Ah, quem conhece o solo pedregoso,
os fiapos emaranhados,
as torpezas que espremem
o coração de quem diz a poesia?
Venha pela boca ou no papel.
Oh, quero chorar pelas palavras
quero bater meu coração letra por letra.
Basta pouso de pássaro,
garça andando fino em águas,
uma encomenda das palavras.
Oh, quero cerebrar o córrego das veias,
esticar o nervo léxico,ciático serviçal
e alegrar esse canto
nos quatro cantos do mundo.
Nas quatro doses da lua.

domingo, 13 de outubro de 2013

Quando o cotidiano argumenta

- Alô! Fulano?
- Ah...Oi..alô pra você também.
- Escuta, nosso filho está melhor com você?
- Melhor? Eu já disse a ele que se ele não quer
nada comigo e com a vida, ele é quem sabe, o problema é dele.
- Como assim, fulano, o problema é dele? Você está louco?
o problema é só dele? Não, meu caro... o problema é nosso,
melhor, é de todo mundo, no sentido real da palavra "mundo"...
O problema é seu e de sua família, meu e de minha família,
o problema é de todos, inclusive do Brasil e do Mundo... E
se deixarmos como está, sem nos importarmos, ele será mais
um nas estatísticas de índice de desenvolvimento humano lááá...
embaixo. Fala sério!
- Alô! Alô!
- Desligou...